Missão Cumprida


7:00, toca o despertador.
Por hábito tocaria 20 minutos mais tarde, mas a empresa adoptou novo horário de entrada para as 8 da manhã, e assim tem sido nos últimos 3 meses o despertar.
Só que esta não é mais uma manhã. A rotina matinal não se tem modificado muito e esta, nesse aspecto, não é diferente. Os 2 ou 3 kms, percorridos na maior das vezes a pé, apenas foram modificados pelas obras aqui e ali.
Mas hoje é diferente. O que te vai nessa cabeça hoje?
Aconteça o que acontecer, será a última com esse espírito. É o último passar do cartão de entrada. No trajecto para a sala de trabalho, enquanto olha para os navios e vislumbra o trabalho que há para fazer, pensa: já não é para mim. A nostalgia que se poderia sentir por ser o último dia de trabalho é posta de parte, porque como diz: é da idade.
As escadas largas, em madeira, com cicatrizes do peso dos anos, são subidas, tenho eu a certeza disso, com o sentimento profundo de dever (muito mais) que cumprido.
As novas leis da reforma, fizeram antecipar aquilo que estaria destinado a ser pensado no próximo ano.
Mas não aguento 5 anos mais! Aliás, os últimos 5 representaram uma carga de 10!
E no primeiro fim-de-semana de Junho, após o que foi anunciado por um Governo que não sabe o que é bom senso, a decisão foi fácil de tomar e o único receio foi se ainda iria a tempo. Mas foi.
Sai no entanto magoado com a atitude de quem trata empregados (?) como números. Mas nesse número não cabe a experiência acumulada de tanto tempo, não dá para ler que nunca esteve em casa por baixa, não demonstra os sacrifícios que fez pelo trabalho, não diz que vem embora com 70 dias de férias por gozar fruto do empenho e da responsabilidade com que sempre encarou o serviço, não diz que chegou ao número 2,3 ou 4 dos mais antigos numa empresa que emprega 1100 trabalhadores.
Esses idiotas que tratam um colaborador por um número, teriam de arranjar um fórmula para fazer passar toda a experiência, para os que se seguem, que não vem nos livros, a experiência do dia-a-dia que é de de ordem técnica e profissional. Digo teriam, porque os que se seguem serão também números e o trabalho é também um número e é por isso também que estamos onde estamos. Estamos onde merecemos estar.
Em conversa com outras pessoas com conhecimento de causa de outras realidades, dizem-lhe que no seu país não deixariam sair assim uma pessoa. Se é certo que tem direito e deve chegar a um ponto que deve abrandar e descansar, pode, contudo, continuar a ser uma mais valia noutras condições em que ambas as partes tiram proveito da situação.
Mas por agora não. Não há nada. Não preocupa, mas custa. Não tira o sono, mas fica a mágoa porque não houve ninguém a querer saber quais as razões que levam alguém a antecipar a sua reforma.
Logo, quando sair, como um Senhor, será pela porta grande assim como grande foi a dedicação. Os erros cometidos foram o resultado de querer fazer mais e melhor e portanto são erros que só acontecem a certo tipo de pessoas.

Resta-me dizer que falo do meu Pai. Falo orgulhosamente e portanto não me preocupei em tentar ser imparcial, embora sinta que poderia ter dito muito mais.

E já agora, leia de novo, mas com estes dois números: tem 60 anos de idade e no próximo dia 1 de Agosto de 2005 completaria exactamente 43 anos ao serviço dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

Da minha parte agradeço-te de durante os meus 31 anos de existência, nunca teres levado os problemas do trabalho para casa (não confundir com trabalho para casa porque isso fizeste muitas vezes;).

Aquele abraço e um óptimo, último, dia de trabalho!

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